Cérebro Distorcido - 1993/1995


Punks da Fazendinha

Em 1993 começou um novo fenômeno punk no Fazendinha, era uma porrada de adolescentes com essa influência espalhados neste bairro, quem queria virar punk começava a colar com essa galera e era bem recebida. A gangue era grande.
O lendário Lupa (integrante da primeira galera punk do bairro, nos anos 80) nos apresentou a possibilidade de começarmos a organizar alguns shows num bar que ele frequentava perto de sua casa, o Bar da Selma, começamos a colar também e fizemos amizade com a dona que nos recebeu fraternalmente.

O principal alicerce do punk é o DIY, com esse pensamento acabamos por fazer a nossa cena, acreditávamos que a partir desse conceito o punk tinha também que criar seus materiais próprios e não apenas consumir produtos. Muitas dessas ideias e produções surgiram nos nossos encontros ali no Bar da Selma. Começamos a escrever nossos zines (Os Impregnantes, Utopia e outros que não lembro o nome), se expressar musicalmente montando bandas ruins pra caramba...  e como tínhamos um fortíssimo envolvimento com a ideologia política (apartidária obviamente) também fazíamos manifestações, panfletagens, organizávamos ações com organizações do bairro... Era algo muito chocante para o povo "normal" ver aqueles adolescentes com visual tão agressivo, entretanto se articulando para debater melhorias para o bairro, ideologia e luta social. Enquanto os jovens em geral (hoje esses tiozões ainda alienados) predominavam suas rodas com conversas superficiais sobre futebol, mulher gostosa e briga... os no nosso grupo já falavam sobre consumismo, feminismo, igualdade... há, e briga também. Como podem ver, a nossa frequencia cerebral era muito diferente do tido como comum, distorcida.

Cérebro Distorcido

Foi a primeira banda punk do bairro Fazendinha, os integrantes articulavam esse movimento no bairro de forma muito dedicada. 
Iniciamos a banda logo após o primeiro gig do Bar da Selma quando um pouco de aparelhagem e instrumentos ficaram guardados em casa e resolvemos fazer um som na garagem. Nesse esquecível primeiro ensaio o som grotesco ecoou pelo longo cômodo aberto e disparou diretamente na casa do vizinho da frente que, com seu encéfalo completamente distorcido pela raiva, tentou invadir a casa com um enorme machado para nos matar. Ele foi impedido por suas filhas, depois desse imprevisto montamos uma pequena estrutura num quarto que eu morava nos fundos e ali recebemos muitas bandas amigas e iniciamos muitos projetos.


Algumas bandas ensaiando em nosso "estúdio":
Confusion of Tongues (SC), Sinfonia di Cachorro (SP) e 
Renegados (CTBA)

Iniciamos a banda com o Girino, que já tocava com o Zero Hora, na bateria... na guitarra Armando, e chamamos também um punk que a gente tinha muita afinidade para ser o vocal, o Chikinha (executado em situações não esclarecidas no início dos anos 2000 devido seu constante envolvimento com o crime - RIP). Ele demonstrou desinteresse e se enrolou demais fazendo que um outro cara, o Pedrão, se intrometesse no microfone.
O Pedrão era uma figura não muito assertiva, muito imaturo, não sabia nada, nem cantar nem gritar, mas tinha vontade de ter uma banda.
Além de ser péssimo cantor, mesmo para o baixo nível punk, não conseguia decorar as letras pois era também muito ruim em interpretação de texto e gramática. Precisávamos ficar explicando as letras para ele não distorcer o significado... e frequentemente dávamos um toque a ele, retificando que era "Cérebro" com "érre", e não "Célebro" como ele repetia.
Num ensaio ele chegou todo contente nos mostrando um boné com o nome da banda que havia pintado:
-Olhe! Escrevi cérebro corretamente.
E estava realmente acertado "Cérebro" mas errou na segunda palavra e grafou: "Destorcido".
Foi hilário e pedimos que ele nem corrigisse, escolhemos esse nome sem muito significado apenas para ser puramente agressivo e direto.

Cérebro Distorcido: Armando, Aulus e Girino / Bairro Portão/Curitiba - 1994

Primeiro show

A gente organizou um som no Bar da Selma junto com outras bandas da cidade, acho que também tocaram Zero Hora, Extrema Agonia e o Neo Canibalismo (banda com o Zorba no baixo).
O Pedrão morava ali ao lado da casa do Lupa, pertinho do local, mas seu pai não queria deixar ele ir, devido a má fama do público que frequentava o estabelecimento, e a gente disse:
-Cara! Você se enfiou na banda de metido, se não for, está fora!
Deu o horário do show e ele não apareceu, o Girino fez bateria e vocal, o Pedrão nunca mais cantou conosco.
Depois disso tivemos algumas alterações legais, a Soninho (Tanhauser) entrou no baixo, dando uma cara nova no grupo. Um tempo depois entrou o Fardado (Misfire) no vocal, mas não vingou, ele era muito experiente com outras bandas boas e a gente tinha um nivel abaixo.
Quando montamos o Bar dos Punks a banda estava estruturada com a formação: Girino/vocal, Aulus/baixo, Armando/Guita e Beterraba/Batera.
O som era um hardcore cru com letras caóticas elaboradas para tentar expor as nossas ideias, mostrando bastante sobre o que é o verdadeiro ideal punk.
Esta banda pode ser considerada também como uma antecessora do L.A.I., já que dela vieram dois dos integrantes e também a música "Arma da Paz, Arma da Guerra" (na verdade é algo diferente pois teve forte influencia do Flores e do Bazor nas músicas e letras). Mas o Flores concorda que a primeira coisa que pode falar é que foi nos ensaios do CD que ele ficava de olho no Beterraba e no Girino e foi dessa observação que acabou interessando-se pela bateria.

Formações que variaram entre 1993 e 1995 

Vocal: Chikinha ⮕ Pedrão ⮕ Fardado ⮕ Girino
Guitarra: Armando 
Baixo: XXX ⮕ Soninho ⮕ Aulus
Bateria: Girino ⮕  Beterraba

Bar dos Punks

Foi o embrião das bandas punks da Fazendinha e foi apenas e somente ali que o Cérebro Distorceu suas notas antimusicais.
Neste centro contra-cultural foi onde, nesta época (posterior à Sede do Rebouças e anterior ao Squat Kaazaa), concentrou-se a cena punk anarquista curitibana. Além dos shows, muitos protestos, projetos e diversos eventos rolavam ali.


Bar dos Punks 1995

Registros


Demo Maldita Repressão



Esta foi uma histórica coletânea punk produzida de maneira totalmente amadora e DIY.
Apesar de dispor de recursos escassos e um conhecimento bem limitado de processamento de audio, os punks curitibanos queriam produzir uma demo com uma qualidade um pouco mais aceitável (dentro dos padrões punks), algo porém que não foi totalmente bem sucedido.
Esta é uma gravação tosca, mas que é um registro importante e raríssimo, sei que nem os integrantes das bandas a têm mais.
O som do Cérebro Distorcido foi gravado durante uma tarde diretamente do palco do Bar dos Punks no Fazendinha, utilizando sua aparelhagem para shows. O controlador de som foi o punk Leonelo "Animal".

Músicas do C.D.:

13 - Eles desrespeitam os animais
14 - Arma da paz, arma da guerra
15 - Ação direta
16 - Sem valor
17 - Caos futuro
18 - Crianças desaparecidas

Além da Cérebro Distorcido, participaram: Desajustados, Extrema Agonia, Renegados e Lixo Atômico.


Presença dos punks na rádio Estação Primeira


Este raríssimo arquivo histórico é uma participação que ocorreu em dezembro de 1994 na lendária emissora FM Estação Primeira (1986-1995), importante e influente rádio rock da história da música curitibana.
A repórter Margot, que sempre foi grande simpatizante do movimento punk, abriu uma oportunidade para que alguns colegas colocassem suas ideias no ar.
Lembro que o movimento punk quis levar: um representante antigo, uma representante mulher e um representante novato. Os participantes dentro desses requisitos foram então respectivamente: Guto, Janine (ambos da banda Extrema Agonia) e Beterraba (Cérebro Distorcido).

Margot Brasil na Câmara Municipal de Curitiba em 2025 / Logo da Estação Primeira

Enquanto o trivial entre os jovens normais era se limitar a assuntos de futilidades, os punks conseguiram mostrar que tinham uma evoluída consciência social e política.
Este trecho do programa conta apenas com as partes de diálogo, mas rolou muita música punk levada pelos nossos colegas pra sonorizar a matéria.
Legal que também foi divulgado eventos que ocorreriam na ocasião. Um manifesto no centro e o show contra a farsa natalina no bairro.


Cartaz e foto original que o ilustrou

O cartaz deste evento eu havia feito conjuntamente com o Beterraba com uma imagem que havíamos pego no arquivo da antiga Sede do Rebouças. A imagem original foi retirada de uma revista, é uma foto colorida de um punk e um indivíduo do grupo étnico indígena melanésio Hulinativo de Papua Nova Guiné. Sei que ela carrega um significado muito forte colocando frente a frente duas culturas tão diferentes e ao mesmo tempo com muitas similaridades.

O protesto e show foram incríveis, contaram com punks daqui e de outras cidades, estados e até de países como EUA e Alemanha.
As bandas que tocaram foram:
Extrema Agonia, Zero Hora, Desajustados, Cérebro Distorcido, Lixo Atômico, Criaturas de Morfeu e Sinfonia di Cachorro (SP).

O deslocamento do centro ao bairro foi peculiar, os punks que vinham do protesto invadiram o tubo de Westphalen, isso de uma maneira até que educada quando o Rato Podre perguntou ao cobrador, ou melhor, afirmou que todos iriam entrar sem o pagamento da tarifa. Cordialmente o rapaz autorizou que os cerca de 30 punks entrassem pela porta lateral de isenção, alguns também pela porta de embarque. Os poucos usuários pagantes que ali estavam também não se incomodaram com a concessão. Visto que ficou até bonito a icônica estação tubo curitibana repleta de integrantes de diversas regiões. Uma gentil cortesia das empresas e da prefeitura em prol do evento contra cultural.
Isso tudo (protesto, convivência, deslocamento, show...) foi registrado com uma câmera VHS, algo raro na época devido ao alto custo, trazido por uma punk americana chamada Ulla que estudava na USP.
Depois de uns dias assistimos em casa no videocassete em um grupo de punks, deixei uma fita virgem para receber uma cópia mas infelizmente perdi o contato e não obtive este incrível registro.


Fotos: Punks na Estação Tubo / Ulla Nielsen filmando um ensaio em nosso "estúdio".

Enquanto uns chegavam de ônibus, pegamos uma perua Parati emprestada e fomos buscar o equipamento para levar até o bar, onde iria ocorrer a "grandiosa" festa punk oposta à celebração cristã natalina.
A aparelhagem tomou conta de toda a parte traseira do carro, eu fui dirigindo e o Girino teve que ir sentado no colo do Beterraba no banco dianteiro. Seguíamos animados e dando risada da improvisada situação. O Beterraba, tremendamente de ressaca, começou a fazer uma cara extremamente agonizante e temendo um incidente regurgitante o Girino pediu, e repetiu, que por favor ele alertasse se estivesse passando mal... e que por favor, não vomitasse nele.
-Beterraba... Não vá vomitar no meu colo!
A inevitável situação foi muito rápida, mas eu vi tudo em câmera lenta quando o arroz, o feijão, a cachaça e o macarrão que se encontravam brigando no estômago, subiram pelo esôfago e formaram um jato espirrando pela cavidade bucal do amigo.
De fato ele não vomitou no colo do Girino, mas sim na sua cabeça, com aquela meleca fedida escorrendo pelo rosto e corpo. Macarrão, arroz, cachaça e feijão...
Fedor de azedo no carro, já estávamos perto do bar dos Punks, onde tivemos que improvisar uma limpeza para devolver o carro, enquanto a vítima foi tomar um banho em casa.

Cérebro Distorcido - Show no Bar dos Punks 1995

Hoje o local onde existiu o Bar dos Punks, na Rua Henrique Mattioli, poderia facilmente ter virado uma farmácia ou uma igreja evangélica. Mas não... Virou apenas uma assistência técnica de eletrodomésticos. Talvez seja um destino apropriado para um lugar onde tanta coisa foi quebrada...

Lembro do dia em que deixávamos o local, os vizinhos da esquina oposta comemoraram. Colocaram algumas cadeiras na frente da casa e assistiram nossa mudança como quem presencia o fim de uma longa fase ruim.

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