O animal debaixo da pele da civilização - 2026 (livro)


  Pelo senso comum, a associação entre as entranhas da floresta amazônica e a contracultura musical punk jamais teria qualquer sentido. Contudo, logo nas primeiras páginas do livro escrito por Mauro All, "O Animal Debaixo da Pele da Civilização", deixamos de lado qualquer preceito estabelecido pra mergulhar numa narrativa única, crua e cruel de uma realidade bruta e poética que dança entre o mundo provinciano dos confins do interior do Norte do Brasil e termina no extremo norte da América estado-unidense. O jovem "desqualificado" e desanexado do mundo à sua volta que Mauro descreve, reflete talvez a realidade de tantos outros nessas décadas pós-ditadura militar, onde cercados pela pobreza, pelo vácuo cultural e pela violência, são relegados ao moedor de carne social vigente. Alguns escapam entre os dedos do sistema e o corrompem à fatalidade do destino, seguindo seus instintos mais viscerais... A música toca os jovens com dedos de um Deus torto. Nesse caso, o punk rock.

A narrativa do livro nos leva a Curitiba dos anos 90, no meio de uma cena punk se reconstruindo politicamente e se destruindo quimicamente sob o teto de uma casa ocupada nos subúrbios da capital. O autor nos navega por entre a boemia das noites frias nos botequins da cidade, cercado de poetas marginais, aos diversos ataques dos Nazi skinhead, a fome frequente e o coração partido. Digno de um romance de Irvine Welsh, mas sem as praticidades da vida britânica. Uma realidade punk, junkie, beat tupiniquim, que levou o protagonista a abandonar a terra do pau-brasil para uma longa jornada que atravessou os rios amazônicos, o deserto mexicano, até a terra prometida do Tio Sam.

A prosa sem enfeites, relatando em detalhes as conquistas e mazelas de uma vida dedicada à busca pela liberdade e o mergulho intenso nos prazeres triviais, remete aos contos de John Fante, a principal influência de Charles Bukowski. "O Animal Debaixo da Pele da Civilização" traz consigo não só um aglomerado de contos urbanos, mas também um olhar incisivo do punk e os movimentos contraculturais que definiram parte da juventude brasileira em meados dos anos 90. Provavelmente, a última geração pré-internet, informada pelas correspondências, leitura de zines, trocas de cassetes e LPs que se autogeriram Brasil afora, criaram um submundo onde quase tudo era possível, mas também se autodestruíram em parte, imersos no álcool, nas drogas e na violência. Uma geração de mãos dadas com o anarquismo e o niilismo.

Resenha por: Carlos Casoti

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