Armados de Revolta - Demo Nuvens Negras (1999)

A primeira fase do Armados de Revolta surgiu em 1996, reunindo integrantes de Canoas e Sapucaia do Sul (RS). A banda tinha princípios libertários e baseava sua proposta política no anarquismo, defendendo a construção do coletivo a partir da autonomia do indivíduo.

A formação era composta:

  • Minhoca – guitarra e vocal
  • S/Pescoço – baixo e vocal
  • Mongol – bateria e vocal

O repertório transitava entre o punk rock e o hardcore, sempre com forte conteúdo político. Um dos registros dessa fase é um ensaio gravado em 1996 no Estúdio do Veveto, com participação de Rita Padilha em uma das músicas.

A reformulação

Em meados de outubro de 1998, o nome Armados de Revolta foi retomado em Curitiba. Segundo um texto publicado pela própria banda na época, a ideia surgiu quando os integrantes estavam reunidos na Rua XV e o Minhoca comentou dessa sua antiga banda do Rio Grande do Sul. A conversa levou à decisão de reativar o nome, mas dando origem a um novo projeto.

O objetivo era criar uma banda de hardcore "criativa e contestadora", sem se prender às formas tradicionais de expressão da cena.

Como diz o texto original:

"A ideia da banda é fazer um HC criativo e contestador, saindo dessa massificação cultural em que vivemos, procurando novas maneiras de expressão. Essa é uma gravação com os antigos sons, só mais tocados de uma maneira diferente (nova formação, nova banda...). Esperamos que cada um escute o som e tire suas próprias conclusões."

Essa observação é importante porque deixa claro que os próprios integrantes entendiam aquela formação como uma nova banda, ainda que utilizando o mesmo nome e músicas.

A formação de Curitiba

A formação era 100% ligada aos moradores do Squat Payoll, composta por:

  • Maíra – vocal
  • Suzana – guitarra
  • Dödo – baixo
  • Minhoca – bateria

A sonoridade também mudou em relação à experiência gaúcha, refletindo a cena curitibana do final dos anos 1990.

Registros históricos

Demo

Banda: Armados de Revolta
Título: Nuvens Negras
Número de faixas: 7 músicas
Formato: Demo Tape
Ano de lançamento: 1999
Duração: 17min27s
Gravação e mixagem: Estúdio H.Mix

Acervo: Tiago Xiwãripo
Preservação: Impregnantes – Memória Punk CWB

Baixar demo e capa

Entrevista

A fase curitibana aparece registrada no Blasfêmia nº 4 (1999), um importante documento da cena punk da época. 

Transcrição da entrevista

*Podem ter ocorrido erros de transcrição ou interpretação em trechos de difícil compreensão.

1 - Da onde surgiu essa banda? Como foi do começo até hoje?

R: A banda surgiu em Canoas (RS) em julho de 96, com a proposta de fazer um hardcore sincero. Achamos que a música é um grande transmissor de ideias. Da formação original só sobrou eu (Minhoca), que fazia guitarra, hoje faço bateria, Suzana-guitarra, Maíra-vocais, e Dödo-baixo. No começo tínhamos grandes afinidades, mas paramos de tocar em 97 pois eu fui morar em CWB. O único material gravado é uma demo-ensaio que nem divulgamos pois ficou muito ruim.


2 - Hoje a mídia só faz uma terrível apologia à globalização, e em casos como o extraditado de Pinochet (fascista) faz com que se fale que o mundo não aceita mais ditadores. O que vocês têm a comentar?

R: Esse é um assunto bem amplo... depois de pensar um pouco (coisa que faltou para o resto da galera), cheguei à conclusão que sempre os privilegiados serão os países do chamado G-7. Penso que Pinochet está no banco dos réus porque foi um ditador do Chile (América Latina). Mas se fosse para julgar os responsáveis pela bomba de Hiroshima, ou outros ditadores (Espanha, Itália, Alemanha), seria que a história seria a mesma? Isso dá uma discussão fodida. Pena que não pude conversar melhor com o resto da banda... (Dödo)


3 - Nos dias de hoje falar de "criação pura" é utópico. Até que ponto uma banda, zine, etc., merecem apenas influências e até que ponto pode se chamar de um flagrante plágio???

R: Concordo com sua afirmação. Hoje tá difícil não sermos influenciados. O lance é buscar um pouco de cada influência e tentar fazer algo mesclado, surgindo assim um lance novo. "...e quando você faz e o povo diz: 'Porra, que merda! Isso eu já vi!'" Penso que o Punk poderia ser menos plagio. É uma pena que numa cultura tão diversificada exista ainda indivíduos maçantes e plágios. (Dödo)


4 - O que acham do mov. Punk hoje no Brasil? O que precisamos para conseguir um equilíbrio dentro do cenário, caminhando desde o Anarco-Punk mais unilateral até o Hardcore mais ingênuo?

R: Então cara, eu vejo muito egocentrismo por parte de indivíduos e isso acaba gerando maiores problemas pessoais, que são canalizados para problemas da cena, desequilibrando e desestruturando a mesma. Anarquismo, A-Punk e Hardcore vejo ambos como opção de cada indivíduo por uma questão de afinidade, e respeito ambos. É uma velha história de ondas; a onda A-Punk, a onda Hardcore. Uma vez os caras se dizem uma coisa e repudiam outra, logo depois fazem o contrário. Um pouco é falta de conhecimento e convicção naquilo que fizeram viver. Bom, mas gostaria de deixar claro que não vejo pessoas como grupos, dentro da cena, mas como indivíduos, e o que mais vale é a sinceridade e o respeito. Vejo muitas pessoas se dizendo aquilo que fazem. O que fazer hoje? Se há cara tentar se divertir e manter a individualidade com sinceridade e convicção, mas só posso falar por mim, equilíbrio acho que nunca existirá. (Maíra)


5 - Qual é pra vocês a importância de cada instrumento dentro do som. Há um que faz mais?

R: Penso que não existe o principal instrumento. Todos são importantes. O baixista dá o peso, a guitarra para mim deixa o som enérgico, a bateria é fundamental, o ritmo aberto, os berros também. Essa união é perfeita. Conclusão: Tudo para fazer o bom e velho HC. (Dödo)


6 - Qual a importância de se ter uma banda dentro de um movimento que se destrói e reconstrói através da "música punk"????

R: Ultimamente muitas bandas têm apenas buscado mídia, principalmente dentro do mov. Punk. Acredito que se faz importante quando coerente com aquilo que se identifica, mantendo assim o pavio do Punk sempre aceso. (Suzana)


7 - Essa é para os integrantes Squatters. O que há de bom e de ruim em se morar numa comunidade punk?

R: Em uma comunidade Punk você pode desenvolver muitas coisas pessoais e coletivas, existe um crescimento individual dos interessados. No meu ponto de vista há privacidade, respeito, apesar de que às vezes deixa a desejar. A convivência às vezes traz alguns atritos, mas nada que não possa ser discutido. Mas os pontos negativos continuam sendo os "larvas", parasitas que atrapalham a organização da comida e da casa toda. (Minhoca)

A comunidade Punk tem seus lados positivo e negativo. Vejo como positivo viver em um espaço onde sou livre para criar e viver aquilo que penso e que acredito, mas ao mesmo tempo sinto falta de privacidade e de individualidade, já que os desejos, neuroses, etc acabam sempre se chocando. O respeito é essencial na convivência. (Maira)

8-Do que falam as letras? Que efeito esperam que elas façam nas outras pessoas, incluindo punx??
R: Falamos de violência, repressão, dor, guerra, machismo, ódio a um sistema que deixou tudo esquematizado para que as pessoas não se preocupem com mais nada e vivam em um mundo robotizado. Escrevemos nossas músicas dando sentimentos e necessidades de expressarmos a si mesmo. Falar sobre o efeito é muito relativo, pois muitos não se preocupam com as letras, só absorvem o som, e isso é foda! Espero apenas que as pessoas reflitam o que queremos passar. Pois a questão não seria sair repetindo nossas letras com ar de satisfação, e sim de desgosto e ódio a todo sistema de governar fascista. Não transmitimos nada que possa arrancar sorrisos. Esperamos que respeitem nosso trabalho e reflitam sobre sua existência. Cada um absorve como quiser. (Minhoca)

9-O que fazem quando não estão tocando?
R: Eu (Maíra) estou com um projeto de teatro que pra mim está sendo muito satisfatório, e nesse sentido me parece sempre inovador, faço um zine que está meio parado e vou sobrevivendo no caos!
Bem, eu e Suzana temos um filho e dedico um bom tempo a ele com ela. Estou fazendo malabarismo com fogo e teatro de rua com outros companheiros do Armados. Faço um zine com minha companheira que estará pronto em janeiro, e mantenho minhas correspondências. (Minhoca)

Fora da banda... Hum... Tenho um projeto de teatro o "PARADOXO" onde encontro uma maneira muito produtiva de transmitir ideias. Tenho um zine "RECICLANDO PENSAMENTOS", que apesar da demora, logo sairá o próximo. Tento sempre também ler algum livro, seja romance ou teórico... assim tendo me manter mais informado. Apesar de não termos acessos a livros novos. Bom, mais isso já é uma "outra" história... O mais tento me manter viva para realizar mais coisas do que quero. (Dodô)

10-Valeu pessoal. Agradeço e peço que deem sua opinião sobre:
INTERNET.

R: Como tudo, existem os dois lados da coisa, é um meio de comunicação fudido, podemos nos comunicar em qualquer parte do mundo em questão de horas. No entanto tem informações prestáveis e imprestáveis. Isso é só uma questão de saber usar. Mas nem todos podem ter acesso. (Dodô)

Vejo a internet como um meio de comunicação extremamente rápido e por isso um meio de facilitar trocas de informações, mas como toda tecnologia manipulada, pode ser um meio de "formação de ideias". Logo uma outra pergunta: A tecnologia pelo indivíduo ou o indivíduo pela tecnologia? (Maíra)

No mais valeu, gente valeu! Espero que ainda possamos brigar e crescer juntos por um bom tempo. (Dodô)

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